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quinta-feira, 26 de novembro de 2009

PARA QUE SERVEM OS JOGOS DE PODER?


Quem souber que responda... este vídeo é para ver e pensar profundamente na direcção que o mundo está a tomar.




atchimmmmmmm!.....


domingo, 8 de novembro de 2009

OS POUPADINHOS DA EUROPA




OS POUPADINHOS DA EUROPA

Cá estou de novo com os meus textos de indignação – já vocês se julgavam livres destas coisas não é? Pena, só lê quem quer... e a mais não é obrigado – De facto, comecei a escrever ontem mas a internet fechou e, como sinto que tudo o que vem, a mal ou a bem, tem uma razão de ser, resignei-me e desisti de o fazer. No entanto, resolvi que hoje, com a cabeça mais fria e o peito mais distante destes assuntos problemáticos do nosso país – sim, já reparei que as notas são estrangeiras mas pá, somos “cidadães do mundo não é assim?” , uma parvoíce à parte para uma conversa que ouvi no telejornal. E o que fui fazer. Claro que os meus habitués leitores vão dizer:
- Mas que manganona e ela que sempre disse que não gosta de ver televisão. É verdade amigos, tenham calma, não gosto mesmo mas, há dias em que tem que ser ou apetece, sei lá bem...
Na verdade, estava eu à conversa com uma amiga que me dizia estar a ver os Ídolos e que estava distraída, sim que as parvoíces também distraem. Como os meus textos (risos). Então peguei no meu portátil e lá fui até à sala ver do que se tratava porque também me farto de estar na net ou, simplesmente ultimamente não tenho tido paciência devido ao corre-corre diário dos afazeres da vida rotineira que muitos de nós, apesar de não gostarmos, temos. Bom, assim que liguei o canal, percebi logo porque continuo a não gostar de ver televisão mas, ri-me... sim, que me desculpem os corajosos que lá vão soltar a voz e, desde já os meus parabéns também porque jamais o faria. Não tenho nem voz, nem carisma para ídolo. Prefiro continuar a brincar nos karaokes ou a soltar-me na minha casa de banho, assim, tenho a desculpa de estar entre amigos a curtir sons que se soltam do peito e nos limpam as mazelas e, na segunda hipótese só chateio o vizinho (risos).

Não foi, de todo, este programa o que mais me indignou, pelo contrário, ri-me que fartei. De tanto fartar resolvi mudar de canal e, depois de brincar ao zapping, que também normalmente detesto fazer mas na altura estava a ser engraçado, parei no telejornal de um outro canal que me vez soltar outros risos. Mais sarcásticos, mais estranhos talvez. Fiquei parva com a grande notícia da noite. Depois de tanto se falar em crise pelas ruas e cintos apertados e tal... vim a saber que é tudo uma grande mentira do povo. Ah! Pois é! Temos um povo mentiroso e poupadinho. Então não é que a locutora disse seriamente olhando para mim – mas aposto que ela estava danadinha para se rir da própria notícia. Disse-me a íris da própria que a não deixou enganar-me: - Os portugueses estão cada vez mais poupados, apesar do Estado gastar mais. - Bom, confesso que ao princípio a segunda parte ficou um pouco longe da minha gargalhada. Tentei imaginar os portugueses os mais poupadinhos da Europa, visto que, segundo a notícia eramos um dos povos mais gastadores, será?... E lembrei-me da Martinha pela rua a fotografar os poupadinhos e nós a pensarmos que eram apenas gente sem recursos financeiros. Andará a Martinha enganada? – Com todo o respeito por ti e pelo teu trabalho amiga que parece que há quem ande a gozar com ele, não concordas comigo? – E pensei... CARAMBA! Afinal andamos todos enganados, a crise que já vem da época do Salazar para cá, não é crise, são precalços do tempo. Alguns abanos de terra, tufões e arrebites do tempo. O povo português é um guloso que só quer gastar e lamentar-se, gritar aos sete ventos que anda sempre em crise. Gente descontrolada é o que é! Como já vi em alguns jornais nas colunas de opinião, a opinarem sobre a actual crise.
Pronto amigos, entrei eu em crise da cabeça aos pés só de me lembrar que tenho amigos com que me dizem ter dívidas, o carro para mandar arranjar, a casa para pagar, o ordenado que não chega, etc, e tal... serão todos mentirosos ou apenas poupadinhos? Eu mesma senti-me mais aliviada porque tenho sentido os reflexos da crise e a tentar puxar de um lado ou de outro para manter a gestão económica da família no caminho certo para poder dar-me ao luxo de me soltar de quando em vez e agarrar-me à cauda de um avião para ir à terra – caraças, ultimamente não tem passado aviões aqui perto de casa – e afinal ando a mentir-me a mim própria só para poder fazer umas poupanças bancárias (risos). Resolvi procurar nas gavetas e nada de papéis a comprovar essas poupanças tão proclamadas naquele écran milagroso que me fez sentir mais leve. Depois pensei, bom acho que são afinal os amigalhaços que andam a gozar com a minha cara quando dizem que não podem ir a tal sítio porque não há dinheiro pa gasolina ou porque o dinheiro do ordenado não chegou porque o desgraçado do patrão diz que anda em crise. Como é que sabendo o que sei que se passa a nível geral posso imaginar os portugueses a poupar cada vez mais. Melhor... como posso imaginar que os reformados andam a investir nos depósitos a prazo? Os meus neurónios já andavam a ficar fundidos de tanto pensar. Sabem como é... sou teimosa... presistente, chamem o que quiserem mas, se há coisas que não gosto é de me sentir enganada e foi quando resolvi começar a escrever mas algo fez a internet fechar porque o telejornal ainda não tinha terminado e, lá resolvi ver e ouvir o resto. No entanto, a poupança não me saía da cabeça quando... finalmente soou-me de longe o resto da frase “... e o Estado anda a gastar mais. Mas tem que aprender com o povo a saber poupar.” Ficou mesmo tudo estragado e dei um salto no sofá. FÓNIX! Como é que pode ser? Então quem anda a fazer tantas poupanças para dar de gastar ao Estado desta forma? Acho que vou aproveitar o Halloween e levar isto numa brincadeira assustadora do noticiário. Ri-me, disse atrocidades, falei com o meu gato, cantei, falei com a Márcia que entretanto se tinha ausentado a pensar nas suas poupanças. – se leste isto deves estar doida de risos... desculpa amiga, ter-te usado desta maneira. Mas, lembrei-me também das minhas poupanças e fiquei revoltada... ora bolas! Mas continuo eu a saber de que poupanças estariam eles a falar... ou gozam comigo ou a malta que anda na rua com um ar esfarrapado, anda a fazer poupanças para um futuro que não consigo imaginar qual, e resolveu dar uma “frescura” na sua rotina e passear por aí a contemplar o País. É pá deviam de andar todos de máquina na mão, talvez fosse mais interessante. Disse isto porque me lembrei de ler algures que o nosso ilustre António Cardoso disse que o fotógrafo é um vadio. – Isto sem desprimor para o fotógrafo em questão e, apenas usando uma achega metafórica – Pois, se calhar é isso... são todos fotógrafos e os gajos do Estado andam a chamá-los vadios e querem é colocá-los em local apropriado para que lhes encham os bolsos com os impostos. Não há volta a dar a não ser que a malta toda tenha família na Inglaterra a ganhar o guito todo e a mandar para o pessoal colocar na poupança, anda aí muita informação escondida. Se a rainha sabe disso manda deportar todos os portugueses (risos).
Sabem do que me deu vontade? De meter-me em Belém... sim, a culpa deste pensamento foi de um comentário do amigo (risos)... porque lá é que se gasta bem e afinal os economistas andam todos cá fora. Que fazem estes especialistas fora dos seus postos? Ora que vão lá ensinar o Estado a poupar pá que nós já estamos fartos de tantas poupanças. Eu gosto de viver o presente. Claro que penso no futuro para amanhã não cair num abismo porque sei que o futuro chegará e depois será presente e cá andamos nesta roda viva recordado depois o que já é passado. Ai que já me troquei todinha...lolol. Comecei a fazer contas para ver... pois só nos cartazes para as eleições é um balúrdio, metade para os bolsos nem sei de que poupanças... depois os gastos dos pneus, arranjos de carros em desgaste pelo país – sim que isto de fazer “apresentações públicas” e promessas a tanta gente dá muitos gastos, fora depois as viagens que são obrigados a fazer em nome da diplomacia e da boa vizinhança. É pá... temos mesmo que poupar para que aquela gente nos possa representar bem lá fora. Mas depois pensei:
-Puxa! Como podem representar-nos bem, sabendo que houve tanta abstenção? Ah! Claro, isto é como no futebol, o que interessa é ganhar e, é sempre bom deixar a abstenção descansadinha e poupá-la para outras eleições caso seja necessário. Bom, sendo assim, temos muito poupadinhos mesmo que deixam alguns gastadores decidirem o futuro do país... afinal sabem lá se amanhã irão cá estar? Depois revoltei-me comigo própria... sim... porque faço parte dos poupadinhos... pá não me abstenho de muita coisa na vida mas como posso eu abster-me de levar os meus putos à Disney para que o Estado possa gastar mais? Fogo! Tenho mesmo que averiguar se tenho dinheiro no banco e tirá-lo todo... se é que já não mo tiraram (galhofada da grossa).

Com os fusíveis em ebulição lá resolvi ir descontrair para a net e fui ouvir umas coisitas no “utubias” como lhe chamo na brincadeira e todos já sabem o que é de certeza. Pois é. Dei comigo envergonhada com uma atitude que lá tive há uns tempos atrás. Infelizmente, em vez de descontrair, sem querer accionei um vídeo onde a Maité Proença fazia umas graçolas sobre Portugal e os portugueses e, li a minha resposta de indignação. Foi tamanha a vergonha que já o esqueci mas, não me esqueço de referir o caso. Sim, Maité é uma atriz que aquando da minha adolescência gostava muito de ver actuar, entre outros que me faziam passar algumas horas em que não sabia bem o que fazer ou, teria que esperar os amigos para sair. Tempos idos mas muito bonitos. Por respeito a esses tempos vou continuar a escrever... já não me lembro muito bem o teor da minha indignação no momento, sei que foi sentida e revelou alguma mácula do meu orgulho em ser portuguesa. Hoje reli, alguns e senti uma tristeza. Pois é amigos, podem bater-me achincalhar-me, fazerem o que quiserem mas não era caso para dizer a maioria das coisas que li em tantos comentários revoltosos. Na verdade, mostramos mesmo que somos portugueses e que temos muito carinho pela actriz em questão ou, caso contrário, nem lhe teriamos dado qualquer palavrita no “utubias” ou seja onde fosse. A pobre da rapariga bebeu um “binhinho do Puorto” a mais e comeu uns pasteizinhos de Belém à conta das nossas poupanças e pá lá deixou sair o oposto do que era hábito dizer sempre que cá chegava e saía: - Eu amo Portugal. Amo os Portugueses. Somos povo irmão. – Na verdade todos os portugueses se sentiram ultrajados, eu própria reagi. Por isso ontem resolvi dormir primeiro para poder escrever de longe de tudo. Bom, já vi muito bom português a brincar com coisas brasileiras e pior, a gozar – não como os brasileiros o conotam, este é um gozo diferente...será?! Desculpem amigos. – do seu próprio país. Depois pensei, fónix... vê-se tanto xabrega por aí a dizer que Espanha é que está a dar que os portugueses são uns merdas sem educação nenhuma... que na Holanda é que é tudo como deve de ser... que deviamos seguir o exemplo do resto da Europa e tal. Digam-me lá! Isto não parece aquela saga da nossa amiga Mafalda da banda desenhada, onde ela dizia mal dela própria com todos os nomes que pudesse e, na altura que a amiga se aproveitou para lhe chamar burra, levou logo um estalo? Visto de longe parece-me bem e lá me vou rindo de novo. O grande erro da maioria dos comentários não é a indignação pelo que disse ou brincou a Maité mas o facto de se posicionarem no facto dela ser brasileira e aproveitarem para atacar os que cá vivem. Se bem me lembro, tenho alguns tios no Brasil e muitos primos que já nasceram por lá e, julgo que devo ter algum respeito por eles e por outros portugueses que por lá proliferam. Desta forma como encararia eu o facto se um deles mandasse uma daquelas anedotas à moda do Alentejo mas incluindo a cultura brasileira e, por essa razão, todos os outros fossem atacados, achariam bem? Eu não... por isso e depois de pensar e, apesar do meu comentário apenas se ter referido à Actriz, penso eu... já nem me lembro bem mas acho que ficou à vista de todos. Sim, reconheço que não gostei da forma como foi expressa toda a brincadeira mas, depois lembrei-me das que faço ou já fiz entre amigos. Das que vejo outros fazerem também e já só posso dizer que é provocativa apenas porque vem de uma figura pública que, apesar de tudo foi sempre acarinhada pelo nosso povo. No entanto, não me quero esquecer que todos nós somos humanos e caímos nas nossas próprias ciladas humorísticas que os outros nem acham muita piada. Eu própria corro muitos riscos destes, apenas com uma vantagem, não sou figura pública e não me é imposto esse cuidado redobrado. Mas acreditem que em relação ao assunto vi outros vídeos ainda mais vergonhosos que pareciam uma guerra aberta de xenofobia e até mete dó ver tanta porcaria exposta naquele site. Bom, uma ilacção tirei, é assim que se começa uma guerra mundial, da forma mais estúpida que podemos verificar se entrarmos no “utubias” e pesquisarmos o nome da actriz. Só vemos respostas e contra-respostas em vídeo que mais valia ficarem quietinhos porque em vez de se mostrarem à altura da sua condição ainda enterraram mais o que pretendem defender, a nossa cultura. E porquê? Vejam tudo com atenção se tiverem tempo para tanta porcaria e verão que entre vídeos e comentários pouquíssimos dizem uma para a caixa. E porque não estou por lá? É simples, resolvi que não meteria o meu nome no meio de tanta porcaria... ainda tentei, juro que tentei mas... era demais ver tanta coisa ridícula e ficar mal acompanhada. Acho que se devia pensar melhor antes de fazer aquele tipo de coisas. Pois ok, sei que corro o risco de irem à minha página e gritar que “aquela porcaria é que não tem qualidade” pelo menos tenho a consciência que não ofendo ninguém nem estimulo guerras culturais ou xenofobias e aí sim, durmo feliz.

Bom, visto que somos “poupadinhos da Europa” vamos lá poupar tanto desgaste e, separar o trigo do joio e não cruxifiquem a maioria pela minoria, caso contrário seria uma desgraça pegada neste nosso mundo já com tanta coisa para chorarmos que até nos faz rir de tanto pensar.

Ainda estou a pensar onde andam as minhas poupanças....(risos) E vocês, não?!

Luísa Abreu





sábado, 7 de fevereiro de 2009

ESTADOS DE ALMA






ESTADOS DE ALMA

O dia acordou sereno e a sua paz entrava pela minha janela, como um longo raio de luz. Cá dentro fazia uma enorme tempestade. No meu horizonte os mares bramiam de raiva e dor, as ondas navegavam atormentadas por pensamentos doentios, não de inveja, não de falta de amor mas, apenas um vazio. O vazio que se instalou por momentos quando, pior do que qualquer sentimento, o vento sopra um gemido de hipocrisia. Hoje, apetece-me sair. Abraçar a serenidade do dia. Apetece-me dirigir até ao mar e esperar que as gaivotas algo de novo me digam. Um estado de alma? Uma divagação ou apenas a constatação de que o tempo já não sabe gritar a dor? Não! Apenas uma vontade de dizer basta! Basta! Basta de usarem a minha boa vontade! Basta de me gritarem palavras gastas e vazias que para mim nada de novo trazem... BASTA!

Como tudo na vida, há uma razão para que o dia comece desta forma. Não sei! Sinto o peito cheio de lágrimas prontas a
sair sem controlo. Nem sei porquê, ou talvez até saiba. Estou farta das pessoas que me dizem, constantemente, que adoram a minha boa onda. Estou farta que aproveitem as minhas ondas calmas e serenas para despejarem o lixo quando acabam de comer. Estou farta que sujem a minha areia limpa e fresca com pedaços de palavras pretas e inconcretas das suas incertezas. E porquê? Porque estarei eu farta, se normalmente dou os meus braços para abraçar a dor de quem amo? Porque estou farta, se sou eu quem se disponibiliza para proteger e afagar a cor do desespero de quem precisa? É simples! É muito, muito simples! O mesmo tipo de pessoas que se aproximam, quase em silêncio, pensam que me estudam, que me conhecem... pensam que sou óptima para soltar os seus bramidos e afagar os seus olhares desvanecidos... esse mesmo tipo de pessoas esquece-se que também sou uma pessoa. Que também tenho os meus dias cinza, que precisam ser pincelados de cor e compreensão. Que também precisam de um abraço de quando em vez e de uma atenção. Mas, é essa gente que se diz companheira e que estará aqui sempre que precise e queira que, me manda calar a dor... que me aconselha a fugir da má onda. Como se fosse de uma má onda se não se poder gritar ao vento a razão porque me roubam as minhas cores? E eu sou o quê? Sou ferro? Sou alegoria de uma qualquer imaginação? NÃO! Claro que não! Eu sou gente... sim, sei que o mundo não gira à minha volta mas, só posso falar do que sinto ou do que já vivi. Só posso dar exemplos ou conselhos sobre tudo o que já senti e escolhi. Sou gente e estou consciente... consciente de que necessito de viajar noutros barcos mais generosos, menos egoístas e caprichosos que apenas reconhecem o seu vapor. Sou gente sim. Sou uma pessoa simples, com gostos simples e desejos como outra qualquer... sou uma pessoa com defeitos e virtudes mas, que merece receber o mesmo apoio e atenção que dá, senão de que vale a entrega? De que vale partilhar, se só posso partilhar boas ondas, boas energias? O que é partilhar se as pessoas jogam o lixo que as incomoda em mim mas partem quando o meu caixote está cheio? Como o posso despejar? Com quem o posso despejar, se olho e já ninguém me quer ouvir?

Bom, nesta loucura de pensamentos levantei-me e deixei-me relaxar num banho quente e demorado, onde nem o pensamento consegue estar acordado. Vesti-me. Peguei na chaves do carro e voei. Fui em direcção a nada, pensava eu. O carro levou-me dali até à praia. Joguei o meu corpo cansado na areia e fiquei a escutar aquela música infinita do mar... doce e cheia de
nuances diferentes. Ali me deixei ficar até acalmar a tempestade que se fazia em meu peito.

Horas depois senti-me purificada... limpa de todos os porquês. Limpa de toda a lixeira que se instalara em mim. As lágrimas secaram em mim porque dançaram de felicidade até à água e, pé-ante-pé lá foram juntar-se ao sal das suas amigas que se pavoneavam para cá e para lá com a areia. Suspirei fundo! Abri o meu peito já vazio de dor mas pleno de esperança. As cores serenas do céu entraram em mim. Senti-me bem! Já era eu de novo!

Decidi então sair dali e dar uma volta ao longo da praia. Os meus pés descalços agradeciam o contacto com a areia e, de quando em vez, encontravam uma ou outra concha que trazia consigo uma história. Todas elas eram diferentes. Todas elas tinham linhas diferentes mas, todas tinham vivido em conjunto no mar, partilhando a vida, os embaraços e até a morte. Agora estavam na minha mão com tanto para me contar. Li os seus segredos com o toque dos meus dedos e adivinhei um pouco a sua sorte. Não era difícil. Eram elas quem me transmitiam os seus sons, as suas cores. Eram elas que compunham a sinfonia da sua vida e a mim bastava-me saber ouvir. Gostei do que ouvi, do que senti.

As horas foram-se passando. Resolvi aproveitar o ar daquele lugar. Estava ausente de mim. De repente! De repente algo me acordou! Olhei em frente e vi alguém que me observava. Vinha do mar... uns olhos grandes e azuis que brilhavam como estrelas sorriam para mim. Fiquei apática, incrédula com tanta beleza que lhe vinha da alma. As ondas do mar trouxeram-no até mim. Perguntou-me se se poderia sentar-se a meu lado. Olhei-o mas penso que o meu olhar disse que sim porque logo o vi levantar-se. Parecia-me uma visão de sonho. Parecia algo planeado para um cinema... não queria acreditar no que vira. Perguntou-me porque estava ali, quando já nem era verão. Falei-lhe no meu acordar tempestuoso e ele ouviu-me com atenção. Perguntou-me se queria andar um pouco e,
levantámo-nos os dois. Seguimos o curso da praia e conversamos como há muito não fazia com alguém. Perguntei-lhe quem era de onde vinha. Porque se aproximara de mim. Ele perguntou-me porque o vi se raramente o viam com o olhar que eu o senti. Disse-lhe que não sabia... que talvez fosse o meu estado de espírito que o trouxesse. Sorrindo ele disse-me que era real e que gostava de ir ao mar fora de época. Sorrimo-nos os dois. Gostava de lhe perguntar o nome mas resolvi que seria melhor ficar assim... apenas um encontro onde dois desconhecidos descontraíram e falaram de tudo o que mais gostavam.

PASSS! AH!? Que se passara? ... Não sei! Só sei que acordei caída no chão. Caí da cama...bolas! Estava a sonhar...ahhahahahaha! Depois de uma valente gargalhada reparei que tinha estado a sonhar. Mas que sonho! Que coisa sem pés nem cabeça! Talvez fosse... ou talvez não. Não me quis alongar no pensamento. Preferi ficar a sornar um pouco por ali. Ainda tinha vontade de dormir mas, logo depois tocou o malfadado despertador. Mais um dia começava a chamar-me para a vida. Um som ruidoso e feio entrava-me pela janela... era o jardineiro a cortar a relva... como eu detestava aquele som pela manhã. Mas sorri. Sorri por tudo o que pensara estar a viver e que afinal era um sonho... ainda bem, dizia parte de mim. Pelo menos dentro de mim não havia tempestade alguma, apenas uma serenidade com cheiro a maresia. O dia estava um pouco sombrio e frio. E como eu detestava o frio! Não porque gostasse de calor em excesso mas... uma temperatura amena seria bem melhor. Não me apetecia largar os cobertores ali sim... ali estava quentinho. Tinha que ser, o dia esperava por mim delirante para me ver viver.

Dirigi-me onde me dirigia normalmente. Fui trabalhar. Entrei e
comprimentei toda a gente como já era normal. Recebi algumas respostas sinceras e outras hipócritas como já era normal. Sentei-me em frente ao computador, liguei-o. Entretanto estava a trautear uma música que tinha ouvido e, alguém se apressou a ligar o rádio. Olhei mostrando que tinha percebido a mensagem e, de retorno um sorriso amarelo recebi. Não era importante, estava indiferente a este tipo de falso companheirismo. De repente o telefone tocou. Atendi. Era um convite para o café. Boa! Pensei eu. Poderia brincar um pouco num local mais arejado e despido de preconceitos e ideias pré-concebidas que se bebia um pouco por ali... dentro do gabinete.

Ups! O tempo voou! Tudo o que é bom voa depressa, pensamos sempre nestas ocasiões. Não, o dia tinha voado mesmo. Hás vezes tenho a sensação que voa todos os dias um pouco mais apressado. Era tempo de sair, ligar o carro e partir. De repente olhei o céu. Delirei! Os meus olhos ficaram colados naquela doce fantasia dançante entre cores mescladas de melodia. Agarrei a minha máquina fotográfica e saí do carro. Dirigi-me para o miradouro e comecei a fotografar... escolher ângulos, adivinhar formas. Eram momentos que me enchiam de felicidade e me faziam viajar para longe da realidade. Não, aquela era mesmo a minha realidade. Sentei-me à beira rio e deixei-me absorver pela sua frescura e paz. Tudo era cor, tudo era vida em meu redor.

O telemóvel tocou. Sorri... já cá faltava um telefonema para me fazer voltar. Primeiro ouvi um pouco da música e, depois então atendi:
- Sim?! Estou!? - falei com vontade que me dissessem ser apenas um engano. Não. Não era um engano. Era muito melhor. Era uma surpresa vinda de longe. Um amigo que não ouvia há muito. Conversamos, rimos... entre parvoíces e brincadeiras sadias, dissemos algumas verdades interessantes. Combinamos um encontro para o dia seguinte. Desliguei o telemóvel. Já não queria atender mais ninguém, apenas ficar ali e deixar-me ir no curso do rio. Pensar na minha vida, nas decisões que teria que tomar. Na minha vontade de mudar algo, sem saber bem ainda o que seria. Apeteciam-me coisas novas, outros horizontes. De repente! Atrás de mim. Ouvi uma confusão. Eram gritos e sons que eu não entendia então, virei-me para observar. Que estranho! Havia uma grande confusão no jardim. De onde estava não conseguia ver nada, pois como sempre lá estava a presença incessante daqueles que nada têm para fazer ou dizer que não seja serem mirones. Porque haveria este tipo de gente? Que em vez de se aproximar para poder ajudar, apenas cercavam o ambiente como uma plateia
sedenta de sangue. Que coisa horrível! Detesto este tipo de gente que se abeira das coisas, da situação como se bebesse tudo o que observava, pávida e serena como se estivessem num filme. Nem num filme consigo ser assim... claro que não sou so centro do mundo, diria-me alguém naquele momento. Sou apenas a pessoa que está a expor a situação e a dizer como sinto tais atitudes. Aproximei-me e pensei... espero não ser nada de grave. Eram duas pessoas que se desentenderam e estavam a bater-se como se fossem crianças magoadas sem saber dialogar sobre os seus sentimentos. Havia raiva e dor nos seus olhos. Não vos vou dizer se eram um casal, se eram irmãos ou se homens ou mulheres... nada disso interessa. O que interessa é que alguém deveria intervir e separar aquelas pessoas. Fazê-las dialogar se possível ou, então, apenas deixar passar o tempo... às vezes o tempo resolve tudo. Olhei em volta. Realmente! Era angustiante os olhares espectantes daqueles que observavam como se fossem verdadeiros vampiros deliciados a beberem de tanta confusão e caos. Tentei perceber o que se passava. Não era possível. Era uma acção demasiado violenta, demasiado confusa para poder incluir-me nela. Telefonei à polícia... pouco me importava se iriam agir ou não mas agi eu conforme achei importante na altura. Abandonei o local porque em nada poderia ajudar. Eram dois adultos que tinham obrigação de ter aprendido a resolver as questões sem violência. A violência é gratuita e dá-me voltas ao estómago. Sim... Claro que poderia sempre tentar algo... mas o quê? Defender quem se nem sabia ao certo o que se passava? Separar como se os vampiros observadores nem me deixavam passar, como se adivinhassem que poderia fazer algo para lhes acabar com o espectáculo. Mais à frente pus-me a pensar. Como é que nós, seres humanos, nos podemos perder tantas vezes? Como podemos deixar que a irracionalidade que tanto se diz desprezar ou ter piedade, tome conta das nossa acções? Não seria melhor dar um murro na parede e sair? Deixar que a dor se desvaneça para que a voz possa sair? Não será melhor dar um pontapé numa cadeira ou outro objecto e deixar que a cabeça esfrie? Não! Há pessoas que adoram demonstrar que têm poder, nem que seja pela força. Um poder fraco quanto a mim. A violência é algo tão animalesco, tão sem fundamento que dirigida a outra pessoa é uma perda total de razão. São as palavras que podem levar ao entendimento. São as palavras que podem fazer resolver algo... o soco apenas descarrega de um lado e carrega do outro. A violência abre fossos difíceis de serem contornados e resolvidos depois. A violência perde sempre a razão, logo não vence nada... perde tudo!

Não sei se a polícia chegou a ir ao local. Já não estava com paciência para estar ali e fui-me embora. Apeteceu-me voltar para o meu
recôndido lar. Apeteceu-me continuar a minha paz interior e voltar ao meu mundo. Entrei, matei a minha sede. Abri uma coca-cola e resolvi pintar. Olhei para a tela branca, à minha frente. Ela parecia querer dizer-me coisas mas não estava disposta a ouvir. Agarrei as tintas. Olhei os pincéis mas não me apetecia usá-los. Sorri... meti a mão nas tintas e fui deixando que elas se desembaraçassem. Deixei-as livres num calcorrear de horas de indecisão, sentimentos, emoções, traços certos ou incertos. Larquei para lá tudo o que me preenchera naquele dia. Era um misto de loucura e paixão a forma como as minhas mãos se moviam... uma sinfonia plástica de dor e alegria, onde a paz interior servia de fundo. De repente! Uma das mãos ficou mais violenta e parecia querer dar um basta em alguma coisa, ou perante algum olhar. Mas, estava só... seria o meu olhar que a s incomodava? Resolvi colocar uma venda nos olhos e, numa outra tela deixei-as desbravar caminho. Quando acabei... fiquei assim... espectante. Não sabia o que pensar ou sentir. Apenas sorri. Algo me agradava mas, havia também algo que me desagradava. Deixei as telas falarem por si. Resolvi que iriam secar e, depois, mais ausente daquele dia eu iria contemplá-las e então sim... então tiraria uma ilacção uma conclusão de tudo. Afastei-me e fechei a porta abrindo apenas a janela para que as tintas secassem na tela. Voltei-me para outro tempo, outro espaço. Resolvi ligar o computador e escrever. Uma vez mais, os meus dedos cavalgavam incessantes como cavalos selvagens. Não os conseguia parar ou demover a escrever algo mais certinho, mais arrumado, algo que fosse uma história com princípio meio e fim para que as pessoas entendessem. Eles queriam lá saber! Estavam apenas a soltar-se a tirar de dentro o que lhes apetecia, sem regras nem pensamentos, sem direcção ou objectivos. Apenas pensei que talvez fosse mais um papel para rasgar e deitar fora. Mas eles ouviram, eles perceberam o que ia em mim e corriam ainda mais velozes sobre o teclado, tentando mostrar-me outros horizontes, outras cores que ainda não vira. Algo que talvez não tenha parado para pensar. Não sei! Sinceramente não sei! Sei que revoltada por não me ouvirem desliguei o computador abruptamente. Sem lhes dar qualquer hipóteses de explicação. Passei à folha branca e, quis apenas fazer uns traços a carvão. Tentei, tentei... juro que tentei mas não entendi. Eles largaram traços misteriosos, sombras, espaços em branco e, larguei tudo. Liguei a aparelhagem e cantei, espalhei a minha voz pelo quarteirão e, ela parecia ser dona de mim. Não a conseguia baixar de tom. Cantava, cantava, não a controlava apesar de ser parte de mim. Desliguei tudo e fui para a banheira acabar o dia com uma banhoca relaxante. Depois passei para o meu cadeirão de massagens e lá me abandonei. Só ele conseguiu controlar a minha energia. Só ele relaxou a minha fantasia e então adormeci. Adormeci nos seus braços que me massajavam e deliciavam. Deixei-me abandonada, entre a música e o seu toque mágico. E enquanto acabava o dia envolvida num adormecer, quase paradisíaco pensava que há dias assim... há dias em que apenas vale a pena ser... há dias em que apenas basta deixar voar o estado de alma. Sim, foram realidades mas também foram estados de alma que esvoaçaram na loucura dos meus dedos que apenas obedeciam a um sistema que há muito é parte de mim.

Luisa Abreu
08/09/09